Você aumentou a distância da corrida, trocou o tênis ou voltou a treinar depois de um tempo parado, e de repente sente uma dor incômoda na parte da frente da canela, que piora conforme a sessão avança. Não é uma pancada, não é cãibra: é uma dor que aparece de forma progressiva e que muita gente tenta ignorar até não conseguir mais correr sem mancar. Essa dor tem nome — canelite, ou síndrome do estresse tibial medial — e é uma das lesões mais comuns entre quem está aumentando o volume de corrida, seja começando do zero ou voltando depois de uma pausa. Entender o que causa a canelite e como tratá-la direito faz a diferença entre parar duas semanas e resolver, ou empurrar o problema por meses.
O que é a canelite, afinal
A canelite acontece na região medial da tíbia, o osso da canela, onde músculos, tendões e o periósteo (a membrana que reveste o osso) ficam sobrecarregados por impacto repetitivo. O resultado é uma inflamação local que dói ao toque, incomoda no início da corrida, pode melhorar durante o esforço e volta a doer depois, ou piora progressivamente até doer mesmo andando. Não é uma lesão rara: revisões da literatura mostram que ela afeta entre 4% e 20% da população em geral, com prevalência bem mais alta entre corredores e militares em treinamento, justamente os grupos que aumentam volume de impacto de forma repetida.
O perfil de quem mais desenvolve canelite inclui pessoas do sexo feminino, com índice de massa corporal mais alto, menor condicionamento aeróbico prévio e histórico de tabagismo, além de fatores biomecânicos individuais. Isso não significa que homens ou pessoas com bom condicionamento estão livres — significa que o principal gatilho é sempre o mesmo: uma carga de impacto maior do que o osso e o tecido conjuntivo conseguem absorver e remodelar a tempo.
Fonte: PubMed
Por que ela aparece: os gatilhos mais comuns
Na prática, a canelite quase sempre nasce de um mesmo erro: aumento de volume ou intensidade rápido demais para o tecido se adaptar. Trocar de tênis para um modelo com menos amortecimento, mudar de esteira para asfalto, adicionar corrida de rua a uma rotina que só tinha musculação, ou simplesmente voltar a correr depois de semanas parado — tudo isso empurra o osso e os músculos da canela para um ritmo de estímulo que eles não estavam preparados para absorver. Some a isso pisada com pronação acentuada, fraqueza na musculatura do tornozelo e da panturrilha, e superfícies muito duras, e o quadro fica ainda mais propenso a aparecer.
